domingo

Chegou uma altura em que ela começou a trocar o certo pelo incerto, o seu andar firme e confiante, tornou-se num andar cambaleante, parecido até a um rastejo, como se a dor de erguer as pernas fosse fatal. Mas a maior ferida que ela tinha, era sem dúvida a do seu coração, no meio de tantas outras, aquela era a que mais doía, que sangrava constantemente e estancá-la parecia estar-se a tornar impossível. Ela sabia que não era nenhum medicamento, nem nenhum curativo, nem o próprio tempo que solucionava tudo aquilo, ela precisava de algo bem mais forte, para que acabasse com a dor de uma vez, uma droga. E, (in)felizmente, a droga que ela escolheu, foste tu, consumiu, consumiu e voltou a consumir sem nunca se enjoar, pelo contrário, tornaste-te de uma maneira incrível, tão viciante para ela, que aos poucos e poucos, como qualquer outra droga, foste acabando com a sua alegria, com as suas forças, com a sua vida. Ela estava prestes a deixar-te, percebeu que afinal, ela tinha mais força do que qualquer droga, do que tu, que com a sua determinação ia sair bem de tudo isto, sabia que não precisava mais de ti. Só que tu, miraculosamente voltaste a aparecer, estragaste todos os seus planos, voltaste para lhe baralhar todos os seus pensamentos causando um curto-circuito algures dentro dela, tão explosivo, que a maior vontade dela era poder fugir de dentro do próprio corpo. Voltaste a dar-lhe uma esperança mínima, minúscula até, mas aos olhos dela, era gigante como o amor que ela tem por ti, indirectamente disseste-lhe para não desistir de ti, de um possível vocês, quando ela finalmente o tinha aceitado não fazer. A respiração dela antes tranquila, é agora roubada por uma bem fraca, fazendo chegar assim aleatoriamente à sua memória todas as lembranças que ela foi obrigada a arquivar para o seu próprio bem. A droga (tu), já ela tinha guardado no convés do seu coração, mas bem lá no fundo, trancado a tanta chave que ela perdeu a conta, para não cair em tentação de te voltar a trazer bem ao topo do seu reino, para não te fazer da sua prioridade e no entanto ela para ti era como lixo, que tu com um simples sopro jogavas para o chão. Ela quer ser a razão do teu sorriso mais tímido, quer que cumpras a tua promessa de quando disseste dar-lhe tudo, enquanto a única coisa que ela quer, és tu. Então e as lágrimas? Essas foram desaparecendo, pois ao longo de todas as noites em branco, o colchão já gasto de todas as voltas que ela deu, as lágrimas estavam sempre lá presentes, pareciam até querer consolá-la, tentavam fazê-la esquecer de todos os erros que cometera, que tu não voltavas a estar presente para seres tu a fazer o papel destas mesmas, que simplesmente não voltavas. Ela segredou para com ela própria que estava na altura de te tornares no seu passado, visto e revisto, e começou a ficar cansada e até doente, só por se relembrar de todo o tempo de espera que a fizeste passar. Chegou à conclusão que talvez, todo o sofrimento, toda a angústia, todo o amor, que ela sentia, foi em vão, ou talvez não, talvez fosses tu que não os merecesses, e com tudo isto, ela tirou uma grande lição e jurou guardá-la eternamente para não se voltar a magoar do mesmo jeito, nunca mais se entregar a alguém de uma forma tão intensa, começar a ser cuidadosa em cada movimento, para o seu coração não voltar a ser partido, e assim foi. E, mesmo ao lado de esta grande verdade, ela ainda arranjou um pequeno espaço que tu consegues preencher por completo na perfeição, para saber que tu foste a razão do seu crescimento, e por incrível que pareça, foi contigo que aprendeu tudo isto. 

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